Aprendizagem – é urgente um novo paradigma!
“As organizações encerradas em esquemas monocrónicos (...) têm a tendência para uma imposição dos tempos insensível ao contexto. (...) .Em lugar de se controlar a avaliação da tarefa, controla-se o cumprimento rígido do horário na conclusão da tarefa (...) não há um tempo pessoal,(...) ele tem pouco poder e muito pouca importância. (...) à medida que unidades mais pequenas do tempo físico ganham significado social, aumenta a sensação de escassez, diminui a sensação de controlo dos acontecimentos da vida pessoal – daí resultam a ansiedade, o stress, as depressões.(...) numerosos actos necessários ao estabelecimento de relações humanas vão, assim, ser marcados pela mesma precipitação, pela mesma urgência.” ( Sousa Pinto,2001, pp 23:33:36)
Todos os que trabalhamos diariamente com a educação já percebemos que, mesmo o que dizemos ser a ‘aprendizagem formal’, aquela que é socialmente certificada, está disponível em maior ‘quantidade’ e mais atractiva ‘qualidade’ fora da escola regular, muito para além de uma organização espacio-temporal determinada por um paradigma que hoje não é mais do que uma respeitável referência histórica.
Porque haverá alguém de enviar o filho à escola, num lugar fora de casa, compulsivamente 5 horas por dia, 5 dias por semana, 10 meses por ano, 9 anos no seu tempo próprio de crescer? A resposta é “porque a vida em sociedade impõe normas de conduta pessoal, como a frequência obrigatória de instituições que fornecem saberes e competências que, depois de adquiridas e certificadas, garantem a empregabilidade e a inclusão com sucesso!”
Mas como compreender, e aceitar, que cerca de 50% dos que se submetem a tal obrigação social acabem por ser excluídos durante o percurso, atirados borda-fora sem remorso nem piedade, e os restantes passem os dias a testar novas estratégias para resgatar do tempo social que a escola monopoliza algum tempo pessoal, que possam utilizar na pesquisa da diversidade de saberes e vivências que o mundo oferece nas redes virtuais ou em novos contextos de afirmação de grupo?
E sabido isto, reconhecido o fenómeno pelos diversos estudos que as diferentes Administrações encomendam regularmente, porquê persistir no modelo sem questionar a sua pertinência social, os seus fundamentos, a sua organização de espaço e tempo, antes fugindo para a frente concentrando o ensino em edifícios cada vez maiores e mais labirinticos, e aumentando os tempos obrigatórios de ‘escolaridade’, também, e sobretudo, em detrimento da libertação dos tempos pessoais próprios para o estabelecimento de relações, leia-se até os tempos biologica e fisiologicamente próprios para a procriação, a generatividade e o exercício da imprescindível rnovação geracional? Ocorre aqui inevitávelmente uma interrogação – para que gerações estamos continuamente a reconstruir e aumentar o modelo de escola regular se cada vez há menos nascimentos?
Já vai longo este rol de interrogações, tendo em conta também o espaço próprio de um blog, e por isso arrisco afirmar já, sem outros considerandos, que é urgente os ‘educadores’ começarmos a desenhar um novo paradigma educativo, assente na partilha efectiva da responsabilidade educativa entre a escola, a família e a empresa, abrindo espaços à negociação dos tempos e dos espaços lectivos também com essas instituições basilares da sociedade, repartindo com elas o nosso poder monopolista de formar, avaliar e certificar saberes e competências... Quanto do tempo lectivo, desde a pré escola à universidade, deverá passar a ser vivido/usado na família e numa empresa, ou apenas trocado por tempo pessoal dedicado ao exercício autónomo da reflexividade? Quantas vezes deverá o professor deslocar-se com um grupo a uma empresa ou actividade produtiva, ou abeirar-se pessoalmente dos contextos familiares particulares dos seus alunos para o exercício de um trabalho colaborativo em educação?
Creio que só em partilha real de responsabilidades poderemos educar, usando todos os espaços e os tempos, mesmo os virtuais, sem os monopolizar, antes fomentando também a autonomia dos nossos alunos na sua gestão, em proveito da sua realização como cidadãos.
“ - Vá com Deus, mas não adianta correr, que o tempo é o que a gente faz com ele, e é só disso que havemos de prestar contas...”(Pombo,2006:9)
30.05.07
SOUSA PINTO,J.M. (2001). O Tempo e a Aprendizagem. ASA. Porto.
POMBO,H. (2006). Treze contos do mundo que acabou. (Unpublished)








